5# INTERNACIONAL 3.9.14

     5#1 SEM UM LUGRAR NO MUNDO
     5#2 A CEGUEIRA DA TOLERNCIA

5#1 SEM UM LUGRAR NO MUNDO
VEJA visitou Honduras e Guatemala, pases da Amrica Central de onde, neste ano, saram dezenas de milhares de crianas e jovens que, para fugir da misria e da criminalidade, arriscam a vida para entrar nos EUA.
NATHALIA WATKINS, DE SAN PEDRO SULA

     Todas as noites, quatro policiais fazem a ronda em uma picape pelas ruas de terra na cidade de San Pedro Sula, a 200 quilmetros de Tegucigalpa, capital de Honduras. A cada esquina pode-se ver uma pichao com as iniciais das maras, as quadrilhas de crime organizado que disputam os diversos bairros, como M18 ou MS. Em um muro, est escrito: "O combo que no se abandona: matamos, velamos e enterramos". A mensagem  uma referncia s trs atividades do pacote de brutalidades dos Tercereos Locaos 18, uma mara que assina com as iniciais TL. Os policiais param em uma antiga casa loca, como so chamadas as residncias abandonadas onde os membros das maras torturam e executam seus rivais, e indicam para a reprter de VEJA o local onde uma jovem foi enterrada depois de ter sido estuprada pelos gngsteres, ou mareros. Na mesma semana, trs taxistas foram assassinados porque se recusaram a pagar o "imposto de guerra", a extorso mensal dos criminosos. Dois jovens foram mortos em uma favela. Eles trabalhavam para uma mara e tiveram um lote de drogas apreendido pela polcia. Em San Pedro Sula, as madrugadas no terminam com menos de trs mortes violentas. 
     Segunda maior cidade do pas, San Pedro Sula ocupa o topo de duas listas indesejadas. H dois anos ostenta o ttulo de municpio com a maior taxa de homicdios do mundo, 169 para cada 100.000 habitantes. No Rio de Janeiro, em comparao, a taxa  de 21,5 assassinatos por 100.000 moradores. A cidade hondurenha tambm  a que mais despachou crianas para tentar entrar ilegalmente nos Estados Unidos no primeiro semestre deste ano. Foram mais de 2500. No total, cerca de 57.000 menores desacompanhados  ou seja, que viajavam sem parentes prximos  vindos de Honduras, da Guatemala ou de El Salvador cruzaram a fronteira americana nesse perodo. Esse fenmeno migratrio sem precedentes levou o presidente Barack Obama a declarar uma crise humanitria e pedir uma verba extra de 3,7 bilhes de dlares ao Congresso para lidar com o problema. Trs bases militares foram adaptadas para acolher as crianas e os adolescentes. Dentro dos Estados Unidos, Obama foi acusado de ser um dos responsveis pela tragdia ao adotar polticas que dificultam a deportao de menores clandestinos e, com isso, passar a mensagem aos cidados dos pases pobres da Amrica Central de que ficou mais fcil realizar o sonho americano. De fato, em 2012, Obama aprovou um programa que suspendeu por dois anos a deportao de imigrantes que chegaram aos Estados Unidos ainda crianas. O prazo depois foi estendido. O boato de que as autoridades americanas esto esperando a todos de braos abertos foi espalhado pelos cartis de droga que lucram ao sequestrar e extorquir os viajantes indefesos que precisam cruzar o territrio mexicano rumo ao norte. 
     Nos dois pases visitados por VEJA, Honduras e Guatemala, porm, essa iluso no existe. Todos sabem que a travessia continua rdua e que, mesmo quando  bem-sucedida, a probabilidade de deportao  alta. "Antes vinham dois voos por semana dos Estados Unidos com deportados. Neste ano, a mdia  de dois voos ao dia. s vezes at trs", diz a irm brasileira Valdete Willeman, que dirige o Centro de Ateno ao Imigrante Retornado, mantido pela Igreja Catlica, em San Pedro Sula. At o fim do ano, a previso  que Honduras receba 45.000 repatriados. O aumento no fluxo de imigrantes, portanto, deve-se mais a fatores locais do que a medidas tomadas pelo governo americano. Um deles  a pobreza, que atinge 65% da populao em Honduras e 54% na Guatemala. Nesses pases, sucessivos governos populistas fracassaram em encontrar uma aptido econmica para tirar os cidados da misria, como fizeram a Costa Rica ou o Panam. Cerca de 15% do PIB de Honduras vem do dinheiro enviado pelos migrantes, clandestinos ou no, que moram nos Estados Unidos. Em El Salvador, esse ndice  de 16,5% e, na Guatemala, de 10%. "As remessas so fundamentais porque chegam a vilarejos e reas remotas que no so atendidas pelos governos regionais", diz Diana Negroponte, especialista em Amrica Latina do centro de estudos Wilson Center, em Washington. Outro fator  a violncia, que cresceu nos anos 1980 com as guerras civis na Guatemala, na Nicargua e em El Salvador, com efeitos colaterais tambm em Honduras. Os conflitos internos geraram uma fuga em massa para os Estados Unidos, que, na dcada seguinte, comearam a deportar os ilegais. Muitos deles estavam em cadeias americanas e, de volta ao pas de origem, continuaram no crime e se organizaram em grupos. Os contatos nas agendas foram mantidos. As maras hoje tm negcios em mais de 200 cidades americanas e com narcotraficantes mexicanos. 
     Os meninos se iniciam nas maras em geral aos 10 anos, vigiando as entradas dos bairros. Maiores, passam a extorquir seus conterrneos e a transportar cargas ilcitas. As meninas se transformam em objeto sexual, a "namorada comunitria", que tambm tem a obrigao de ajudar os homens nas atividades criminosas. Aqueles que rejeitam o recrutamento passam a ser ameaados de morte. Alguns nem sequer conseguem sair de casa, quanto mais ir  escola. Inseguros com o futuro dos filhos, muitos pais decidem envi-los aos Estados Unidos mesmo sabendo de todos os riscos. " muito triste ver minha filha ir embora, mas  pior que ela fique", diz Nora Gutierrez, de 45 anos, vendedora de tortillas em El Progreso, em Honduras. A filha Danya completou 17 anos dentro de uma priso na capital mexicana aps ser pega no meio do percurso. Ela cruzou rios de barco e escalou montanhas. "Essa foi a primeira tentativa, mas vou tentar novamente", diz Danya. 
     A aspereza da crise leva muitos a acreditar que a soluo  os Estados Unidos abrirem as fronteiras e anistiarem todos os imigrantes ilegais. Tal proposta, claro, jamais seria aceita pela populao ou pelos polticos americanos. O pas seria inundado por milhes de pessoas depauperadas, a maioria sem nenhuma qualificao profissional, que passariam a ter direito a oitenta programas sociais, alm de comida, remdios e abrigo pagos pelo Estado. Seria um desastre econmico. Em mdia, uma famlia imigrante contribui em impostos com menos da metade do que demanda em subsdios. Por mais desoladora que seja a imagem dos imigrantes, entre os quais menores desamparados, cruzando rios, cercas e desertos em busca de uma vida melhor, os Estados Unidos no podem se dar ao luxo de receber a todos. Sem oportunidades e segurana em seu prprio pas, no h lugar neste mundo para os miserveis da Amrica Central. 

SOZINHO
Giancarlo Javier Mejia Peraza, de 13 anos, foi deportado h trs meses ao tentar chegar aos Estados Unidos para se juntar a sua av, que mora em Houston, no Texas. "No tem ningum da minha famlia aqui", diz ele, que divide, de favor, um quarto sem janelas com uma amiga da av em San Pedro Sula, em Honduras. Giancarlo no tem contato com o pai, preso por roubo quando ele nasceu, e no gosta de visitar a me, que est na cadeia por porte de drogas. O bairro onde vive  dominado por duas maras, a MS e a M18. "No posso ir para a escola. J me bateram e ameaaram me queimar vivo e arrancar meus dedos'', diz o garoto, que estuda matemtica e ingls sozinho em livros comprados numa banca de jornal.

CICLO 
Taxista assassinado em San Pedro Sula, em Honduras, por se recusar a pagar a extorso s moras. A criminalidade leva muitos hondurenhos a tentar a vida nos EUA, numa viagem que comea com a travessia do Rio Suchiate, entre a Guatemala e o Mxico. Os coiotes cobram at 7000 dlares para levar uma pessoa aos EUA, com direito a trs tentativas. Acima, famlias com filhos pequenos deportadas pelas autoridades mexicanas chegam a San Pedro de nibus.

PELO TELEFONE
Em junho, os filhos de 16 e de 17 anos de Lilian Perdomo foram para os Estados Unidos. Eles tomaram essa deciso depois do assassinato de uma colega de classe. Tinham medo de voltar  escola. Foram pegos pelas autoridades americanas, mas logo liberados com o compromisso de retornar para a audincia de deportao. Em vez disso, foram morar com uma cunhada de Lilian. "Talvez eu nunca mais volte a v-los. Meus filhos fazem muita falta, mas sei que esto melhor l", diz Lilian, e se emociona ao sentar na cama onde dormia um deles. Ela vende balas na porta de casa. O marido no pode trabalhar porque teve a perna amputada em decorrncia do diabetes. 

A VOLTA DO FILHO MORTO
     O agricultor Francisco Ramos tornou-se um dos smbolos mais comoventes da tragdia dos menores desacompanhados que tentam entrar nos Estados Unidos quando a foto acima foi publicada na revista americana Newsweek. Na cena, familiares tentavam consol-lo no enterro do filho Gilberto, de 15 anos. O corpo do adolescente foi encontrado em estado de decomposio no deserto do Texas. VEJA falou com Francisco no ms seguinte, aps um percurso de trs horas em uma estrada de terra e 45 minutos a p no meio da mata, na cidade de San Jos las Flores. O povoado  to isolado que o nascimento de Gilberto foi registrado quatro anos depois. Por isso, as primeiras notcias informavam que ele tinha 11 anos, como consta em sua certido. 
     Francisco no consegue voltar ao cemitrio, tamanha a dor que sente. O objetivo de Gilberto era ganhar dinheiro e enviar uma parte para comprar remdios para a me, Cipriana Juarez Diaz, que tem epilepsia. "Eu no queria de jeito nenhum que ele fosse, mas ele queria lutar pela vida da me dele e passou um ano insistindo. Cedemos por necessidade", diz  o pai. Ainda em choque com a morte do filho, Cipriana mantm o olhar distante e apenas balbucia algumas palavras. A famlia planta milho e batata para a subsistncia, mas s vezes o que colhe no  suficiente para alimentar a todos. Francisco lembra com arrependimento do dia em que deixou Gilberto na cidade de San Juan, a trs horas de casa, com um coiote que cobrou 2500 dlares para lev-lo at os Estados Unidos em segurana. Para ter o dinheiro, Francisco fez um emprstimo com um irmo, que ele ainda precisa honrar. O nmero de telefone americano de outro irmo, escrito no cinto de Gilberto, foi o que permitiu o reconhecimento do jovem. "No sei se meu filho morreu de fome, sede ou cansao. Vou carregar essa dor para o resto da vida", diz Francisco. 


5#2 A CEGUEIRA DA TOLERNCIA
O excesso de zelo em no parecer racista ou excludente leva a Inglaterra a ignorar a apologia do terrorismo e a reagir lentamente aos crimes cometidos por muulmanos.

     Os ingleses foram surpreendidos na semana passada por duas consequncias amargas do multiculturalismo que, de boa-f, praticam no pas, visto como um paraso onde os preceitos anglo-saxes no podem ser considerados superiores s religies e aos costumes de cidados das mais diferentes origens. O primeiro choque veio no domingo 24, quando o jornal ingls Sunday Times revelou que o MI5, o servio secreto ingls, identificou o mascarado integrante do grupo terrorista Estado Islmico que decapitou o jornalista americano James Foley, na Sria, h duas semanas. O criminoso seria o rapper L Jinny, que vivia em Londres com sua me em uma casa de 3,7 milhes de reais. Segundo os amigos, L Jinny tornou-se radical depois que se envolveu com seguidores do clrigo muulmano Anjem Choudary, que circula livremente pelas ruas de Londres em uma perua e com um megafone elogiando o Estado islmico (antes conhecido como Isis). Quando perguntado na televiso sobre o assassinato de Foley, o clrigo respondeu que a decapitao  permitida pela lei islmica. "No apoiamos os Estados Unidos, ento temos de apoiar os terroristas", disse Choudary. Abdel-Majed Abdel Bary, o nome real de L Jinny, tem 24 anos e juntou-se ao Estado Islmico no ano passado. Ele  filho de Adel Abdel Bary, que foi extraditado para os Estados Unidos em 2012 acusado de participar dos atentados de 1998 contra as embaixadas americanas no Qunia e na Tanznia. 
     O segundo choque de realidade veio com a publicao de um relatrio oficial revelando que mais de 1400 meninas, algumas delas com apenas 11 anos, foram vtimas de explorao sexual entre 1997 e 2013 na cidade de Rotherham, no norte da Inglaterra. Os criminosos, a maioria de origem paquistanesa, organizavam estupros coletivos, sequestros, espancamentos e trfico de garotas brancas. Nesse intervalo de dezesseis anos, vtimas levaram aos policiais listas escritas a mo com o nome dos criminosos e pedaos de roupa com evidncias, mas os policiais recusaram-se a agir porque temiam ser acusados de racismo. Na linguagem politicamente correta britnica, os paquistaneses e seus descendentes so chamados de "asiticos". Era assim que os criminosos eram descritos nas denncias feitas pelas vtimas. Num trecho do relatrio divulgado na semana passada, os policiais afirmam que relutavam em enfrentar as gangues de muulmanos porque isso poderia prejudicar a "coeso da comunidade". 
     Os paquistaneses pedfilos perceberam uma brecha para a impunidade porque os policiais e as autoridades de Rotherham costumavam ser omissos em relao a costumes retrgrados praticados pela comunidade muulmana, como o casamento forado de crianas. Ao saberem de mulheres que fugiam da violncia domstica, os policiais, em vez de ajud-las, pediam a assistentes sociais que as encontrassem e depois tentassem devolv-las ao convvio com o marido. Sem uma instituio que coibisse prticas em conflito com o bom-senso e a lei, as violaes adquiriram contornos maiores. Os indivduos que se envolviam no estupro de meninas passaram a ganhar propostas de emprego e oportunidades financeiras para aliciar garotas brancas pobres, que chamavam de "lixo branco". Muitas eram abordadas na sada da escola e seduzidas com telefones celulares, lcool e drogas. Depois, eram violentadas por um ou vrios homens e sofriam ameaas de morte constantes. Apenas um caso resultou em condenao. Em 2010, cinco homens com idade entre 20 e 30 foram condenados pelo abuso de meninas de 12 a 16 anos. Foi uma exceo. Com medo de serem acusadas de intolerncia tnica ou cultural, as autoridades inglesas permitiram atrocidades imensamente maiores. 
     A praga do multiculturalismo  entender que mesmo os atos mais nocivos cometidos por um membro de outra cultura no podem ser censurados, uma vez que isso seria um gesto de arrogncia, etnocentrismo ou preconceito. O im Choudary, que inspirou o rapper terrorista e quer implantar a lei islmica na Inglaterra, por exemplo, tambm foi o mentor de Michael Adebolajo, londrino de ascendncia nigeriana que atropelou um soldado ingls no ano passado e depois tentou decapit-lo a facadas. Apesar de tudo isso, Choudary continua pregando o dio sem ser incomodado. Na sexta-feira 29, o primeiro-ministro David Cameron elevou o nvel de alerta contra o terrorismo no pas para "severo", o que significa que um ataque  altamente provvel. Pelo menos 500 islamistas criados no bem-bom do multiculturalismo britnico e que foram lutar na Sria e no Iraque agora podem estar planejando retornar  Inglaterra para cometer atentados. 


